domingo, 21 de março de 2010

O fim da preparação física (Será?)


Se um jogador treina as necessidades que estarão presentes no jogo, ele estará apto a agir de acordo com o que foi trabalhado. Logo, treino é jogo e jogo é treino

Prof. Lucas Leonardo

* Lucas Leonardo é integrante do Núcleo de Ensino à Distância (NEAD) da Universidade do Futebol, treinador adjunto das categorias sub 13 e sub 14 do Paulínia Futebol Clube, coordenador pedagógico do projeto “Gol-de-Mão” desenvolvido pela Associação Campineira de Handebol e realiza estudos sobre pedagogia do esporte e análise do jogo.

Este espaço virtual tem como uma das principais características a liberdade para que novas idéias e propostas sejam pensadas e socializadas para interessados em futebol.

Não pretendo com este texto mudar imediatamente a prática existente hoje no futebol, mas evidenciar o que alguns poucos espaços que pensam o futebol sob uma perspectiva sistêmica e complexa estão a aplicar com muito êxito.

Pretendo, portanto, instigar todos os leitores a pensar sobre o papel que a preparação física assumiu no futebol ao longo das últimas décadas e como novas abordagens metodológicas pautadas em novos prismas ideológicos podem sustentar um caminho que se abre para a preparação física: a sua extinção.

Como bem se sabe, ainda hoje (começo de século XXI), o modelo de ensino baseado em exercícios analíticos e pautados no tecnicismo continua a reinar como a principal forma de aplicação de treinos no futebol.

Quando se pensa a forma de abordagem de um treino realizado sob esse prisma ideológico e metodológico, verificam-se treinos pautados em repetições de gestos técnicos e treinos táticos descontextualizados e fragmentados, aplicados através da simples reprodução de deslocamentos e organizações táticas previamente definidas pelo treinador. Logo, não há desafio nem problemas a serem resolvidos. Apenas se executa!

A partir dessa matriz organizacional de um treino, questiono: Há intensidade suficiente num treino como esse para que as capacidades físicas sejam minimamente desenvolvidas?

Obviamente, por ser um treino tecnicista totalmente inespecífico, torna-se impossível obter ganhos físicos suficientes para que um jogador agüente toda uma partida de futebol.

Surge então, para sanar esse problema, o especialista do treino físico.

A seleção brasileira de futebol, por exemplo, teve em Paulo Amaral a figura do primeiro preparador físico do Brasil em Copas do Mundo, isso, para a Copa de 1958.

Instaura-se, a partir disso, a era dos especialistas: especialista da parte física, o especialista da parte técnica, o especialista em goleiros, o especialista em fisioterapia... especialistas e mais especialistas, com o intuito de suprir aquilo o que o treino tecnicista deixa a desejam em sua aplicação.

O futebol nunca foi tão fragmentado ao adotar essa visão multidisciplinar, que não colabora para uma convergência interdisciplinar dessas diferentes áreas, uma vez que cada uma delas atuam de maneira isolada e desconexa uma das outras.

A falta de intensidade proposta pelo treino tecnicista acaba por requerer que, pelo menos, em um período específico, as valências físicas sejam contempladas e, a partir disso, surge a necessidade dos, ainda tradicionais, momentos de treinos técnico-“táticos” e momentos de treinos físicos feitos em separado, evidenciando a necessidade do preparador físico à beira do campo, mensurando e quantificando o trabalho físico dos jogadores, já que treinar tecnicamente e “taticamente” não é o suficiente para que todos os objetivos atléticos sejam alcançados numa visão fragmentada e tecnicista.

O treino físico comporta-se como uma espécie de reforço para que os jogadores que sabem fazer passes, cabeceios e lançamentos, e que sabem movimentar-se em campo de forma previamente definida pelo treinador, consigam agüentar a jogar uma partida.

Ou seja, só se joga, porque as partes do jogo são exercitadas separadamente.

Para aguentar o jogo, treina-se o físico.

Para executar o jogo, treina-se o técnico.

Para movimentar-se no jogo, treina-se o tático.

Quando coloco no título desse artigo que caminhamos para “o fim da preparação física”, o faço por meio de uma reflexão simples:

“Para aguentar, executar e movimentar-se no jogo, basta treinar o jogo, afinal se é o jogo que tenho que aguentar fisicamente, executar tecnicamente e movimentar taticamente, qual seria a melhor ferramenta para isso do que usar o próprio jogo para tornar os jogadores aptos a jogar?”

E, se através do jogo sou capaz de aguentar, executar e movimentar uma partida de futebol, os treinos físicos, técnicos e táticos isolados acabam. Treina-se através de jogos!

No entanto, não basta usar jogo, simplesmente. Torna-se necessário que um ponto seja muito bem definido para que o principal objetivo do período de treino possa ser atingido (tornar o jogador apto para jogar o futebol): construir os Modelos de Jogo que serão os guias de todo o planejamento.

Um Modelo de Jogo, de acordo com Marisa Silva Gomes (2006) está relacionado com a execução dos princípios norteadores do jogo através da articulação destes com seus sub-princípios e sub-princípios de seus sub-princípios.

Para Claude Bayer (1994), esses sub-princípios e sub-sub-princípios são designados por “regras de ação” que são os elementos que operacionalizam a execução dos principais princípios do jogo.

Deixando mais claro o que é um Modelo de Jogo, pode-se dizer que ele está relacionado com os princípios funcionais do jogo (momentos de ataque, de defesa e de transição ofensiva e defensiva) e os princípios estruturais do jogo (estratégias de recomposição defensiva, flutuação vertical dos jogadores em função da bola, compactação ofensiva e defensiva, aspectos relacionados à mobilidade e amplitude ofensivas e outras) que devem articular-se constantemente.

Definido o modelo de jogo, basta que, para garantir sua assimilação, utilize-se como ferramenta de organização dos treinos diferentes tipos de jogos contextualizados com o futebol (ou seja, que contenham bolas, equipes, alvos a defender, alvos a atacar e um campo de jogo) e capazes de abordar os elementos do modelo de jogo adotado.

Se um jogador treina com jogos que contemplem às necessidades que deverão estar presentes posteriormente na partida de futebol, ele se tornará apto a agir de acordo com o modelo de jogo que a equipe irá trabalhar. Logo, sob esta lógica, treino é jogo e jogo é treino!

Através de mudanças de DENSIDADE dos jogos propostos – variando tamanho do campo, mudando regras relacionadas ao número de toques na bola, número de passes para poder marcar um gol, quantidade de jogadores em campo e etc. – torna-se possível que se atinja a forma física ótima para que o jogador aguente fisicamente a jogar de acordo com o modelo de jogo que sua equipe estará realizando em campo, além, claro, deste aprender a executar o jogo e movimentar-se no jogo através de atividades contextualizadas com o futebol.

E melhor, tudo isso é feito de maneira integrada. Ganha-se tempo e qualidade. Treinar em um período deixa de ser um absurdo, mas sim uma realidade, já que os treinos tornam-se intensos e auto-suficientes, uma vez que, para jogar, os atletas devem vivenciar cada um dos jogos propostos com grande intensidade, senão, não há jogo.

Compreendendo que o jogo pode ser explorado de forma a pautar todas as atividades do planejamento, as equipes de futebol ganham um treinador adjunto e perdem, definitivamente, um preparado físico.

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