
*Fabiano é o de camiseta branca.
por Marcelo Mugnol (ocaxiense.com.br)
Fabiano não está sozinhoO responsável pelo preparo físico do Caxias entrega: “O jogador de futebol é carente”
O sol brilha neste estranho verão do sul do Brasil. Quem pode, esconde-se à sombra. Tenta assim amenizar a incidência do sol que parece queimar a pele. À beira do gramado, pouco antes do árbitro apitar o início de mais uma jornada, de mais um campeonato que vai ficar guardado na bagagem de uma carreira em franca ascensão, Carlos Fabiano Mazolla Vieira, ou simplesmente Fabiano Chá, como é conhecido no mundo da bola, desvia o olhar do campo e por um breve instante lembra que está nessa sozinho.
Não desmerece a torcida, os amigos fardados com as cores do Caxias, nem mesmo os companheiros da comissão técnica ou da direção do clube grená. Reverencia o brio de uma torcida que, faça chuva, dilúvio ou sol, está sempre apoiando o time do coração. Reconhece o valor do clube e valoriza o fato de um dia ter sido convidado a integrar esse grupo que planta todos os dias a melhor semente de olho na farta colheita.
Fabiano Chá goza da mesma glória que o garoto Sidivan, terceiro goleiro do Caxias. Não distribui autógrafo e não tem sua foto estampada na lojinha do clube. Mas quem convive com Fabiano sabe que ele não é desses obcecados pelo poder de uma câmera de televisão. Sua missão é colocar os atletas em campo, com o melhor condicionamento físico possível. E mesmo que a massa grená não reconheça ou nem mesmo saiba, é ele um dos responsáveis por fazer o time avançar e defender sem se fatigar, sem permitir que a gana de vencer esmoreça diante do temporal, do sol de rachar o coco, ou de uns quilinhos a mais.
Fabiano entrou nessa por gostar de futebol. Chutar uma bola murcha e vê-la voar indefensável rumo ao gol adversário é a síntese do prazer da infância de milhares de garotos espalhados pelo Brasil. E por que seria diferente com Fabiano? Ninguém da sua família percorreu os caminhos e descaminhos do espinhoso mundo da bola. Nem por isso furtou-se do prazer de garoto.
Inquieto, Fabiano resolveu virar o campo de cabeça para baixo. Na contramão daquela gente de futebol que via o jogo com outros olhos na década de 90, trancou-se na faculdade. Formado em Educação Física em Curitiba, cidade onde nasceu, ele percebeu a brecha na defesa adversária e correu veloz para saciar a sede de conhecimento. Com o diploma guardado em casa, Fabiano suava atrás do balcão no comércio da capital paranaense. “Só um ano depois de formado é que fui trabalhar no futebol. Em 1992 entrei nas categorias de base do Paraná Clube”, conta o preparador, 38 anos, depois de um treino puxado do Caxias.
Muito calmo e tranquilo, surpreendeu-se com essa guinada ao passado instigada pelo repórter. Às vezes, rever o passado é tão estranho quanto tentar prever o futuro. Fabiano lembra-se de todas as vitórias e tropeços vivenciados, mas ao mesmo tempo, ao abrir seu baú de memórias, parece revelar sua sina. Nada triste, porém nada fácil, nem simples assim de lidar, como imagina o mais desavisado torcedor. Lá do alto da arquibancada nem todos reconhecem o valor de um profissional de educação física. “Os caras pensam que a gente só manda correr”, brinca.
“O preparador físico é muito importante. Ele é o elo entre o atleta e o treinador. É mais fácil o cara vir se abrir comigo”, afirma Fabiano.
Fabiano chegou ao Caxias no meio da Copa Arthur Dallegrave, de 2009, ainda na ressaca do Campeonato Brasileiro da Série C. Pegou o barco andando e não pôde interferir muito no processo. Escorado na bancada onde os atletas e a comissão técnica concedem entrevistas coletivas, na sala de imprensa do Estádio Centenário, ele relembrava como foi contratado. “Vim para cá através do Tato. Foi ele quem me indicou ao presidente Osvaldo Voges, que por sua vez foi consultar o Gilson Kleina para confirmar informações a meu respeito”, revela.
O preparador físico do Caxias citou dois amigos que fez no futebol, ambos nascidos em Curitiba. Kleina formou-se com Fabiano na faculdade, lá em 1991. Carlos Alberto de Araújo Prestes, mais conhecido como Tato, ex-jogador do Fluminense e outros tantos, que atualmente gerencia o futebol do Caxias, Fabiano foi conhecer em 2005, quando trabalhou com ele e com Kleina no Paysandu. Tato, que estava sentando na mesma sala de imprensa, aguardando sua vez de entrar no ar em um dos programas de esporte da Rádio Caxias, disse, brincando, que era sua culpa ter colocado o Fabiano nessa.
Os dois caíram na gargalhada. O futebol prega dessas peças. Como uma faca de dois gumes, a amizade entre os profissionais da bola acaba promovendo reencontros como este, mas a mesma amizade e o desejo de vencer na profissão acaba afastando-os de suas famílias. “O jogador de futebol é carente. Tá quase sempre longe da família. A maioria é como uma criança, porque precisa de muita atenção. E a gente da comissão técnica acaba se tornando parte da família desses caras”, observa Fabiano.
Um dos poucos contatos que o torcedor tem com o preparador físico é no aquecimento do time, minutos antes de uma partida de futebol. Lá de cima da arquibancada, o apaixonado torcedor só enxerga o profissional de educação física exercitando os atletas. Poucos deles acompanham o dia a dia do time. E um número menor ainda sai de casa ou mobiliza os amigos para conferir treino físico durante a semana.
“O preparador físico é muito importante”, defende Fabiano. “Ele é o elo entre o atleta e o treinador. Porque o treinador tem de manter aquela certa distância. Faz parte, e tem de ser assim. Agora, a gente está sempre em contato com o atleta, vive o dia a dia deles. É mais fácil o cara vir se abrir comigo do que com o treinador. Por isso que eu costumo dizer que a gente tem de ser um pouco preparador físico e um pouco psicólogo também. Às vezes o atleta não diz, mas está com um problema na família e isso acaba interferindo no resultado dentro de campo.”
Fabiano é desses raros caras do mundo da bola que sentem o mesmo prazer trabalhando em campo ou em casa estudando. “Procuro observar o trabalho de outros preparadores. Se um deles faz um exercício de aquecimento que não faço, vou lá e copio. Feio é imitar coisa errada”, brinca. “Fora isso, eu estou sempre procurando ler, pesquiso em livros, na internet.” Sua dissertação de pós-graduação é tiro certo no calcanhar de Aquiles dos boleiros. Fabiano descobriu que quanto maior é o interesse dos atletas em aprimorar o seu conhecimento, estudar, ter curiosidade em evoluir mentalmente, melhor é o seu desempenho em campo.
“Comprovo que se o jogador tem mais interesse no conhecimento, mostra um nível cognitivo melhor, ele acaba tendo um poder de reação maior quando estiver diante do goleiro, por exemplo. A velocidade de pensamento, de reação desse jogador vai ser maior se ele for um atleta que busca ter mais conhecimento”, explica. Difícil é justificar exceções como Garrincha, um gênio com a bola nos pés e um homem simples, para ser eufemista, longe da bola. Mas aí é covardia.
Fabiano reconhece que hoje em dia os jogadores de futebol valorizam a atividade do preparador físico. Principalmente quando enxergam o resultado do trabalho. “Eles têm de entender que hoje pode ser um treino chato, mas que lá na frente vai ser benéfico”, lembra. “No futebol, costumo dizer, não tem o certo ou o errado. Eu trabalho da forma que acho a mais indicada. É o resultado em campo que vai dizer”, sintetiza.
Esse resultado, no entanto, deve obedecer a uma equação muito bem equilibrada. Metade do mérito é fruto da orientação do preparador físico em comunhão com o departamento médico e metade depende da dedicação do atleta. Alia-se a essa dedicação uma boa dose de disciplina, aí não tem como não dar certo, revela Fabiano.
“A gente orienta tudo. Desde o trabalho na academia, o que pode e o que não pode no dia do jogo, alimentação, tudo. O ideal é que eles tenham uma boa noite de sono. Esse é o melhor remédio para uma boa recuperação. Por isso falamos tanto a eles que a noite foi feita pra dormir. Mas a gente sabe como é, às vezes o cara quer sair e se divertir, tomar sua cervejinha. Só que tem hora certa. Se o cara estiver de folga, não vai jogar no final de semana, é uma coisa, mesmo assim, não dá pra exagerar”, ensina Fabiano.
“Sempre digo aos que estão no banco que eles precisam estar prontos. É preciso mantê-los motivados o tempo todo”, explica Fabiano
O treinador Julinho Camargo disse ainda antes da estreia do Caxias contra o Inter de Santa Maria que sua equipe jogaria como ele sonha a partir da quarta ou quinta rodada. Porque é o tempo necessário para o elenco todo, não só os titulares, assimilarem a sua forma de jogar. Mas também por questões físicas. “Estamos na fase de transição de um treinamento mais forte, de força, mesmo que mesclado com movimentação com bola, para uma fase de jogo. Só se ganha ritmo de jogo jogando. Não tem outro jeito. Por isso, pra mim, por questões físicas, o Caxias vai estar com o seu condicionamento ideal a partir do terceiro ou quarto jogo”, observa Fabiano.
Mesmo que exista um trabalho padrão, uma maneira de condicionar o atleta que seja mais coerente, segundo o pensamento de Fabiano, ele reconhece a necessidade de adaptar os trabalhos para cada tipo de atleta. “Tem de respeitar a individualidade biológica de cada um. Às vezes não adianta insistir com treinamento de velocidade com um jogador que nunca vai ser rápido”, avalia. “Eu nunca tinha trabalhado com o Julinho, mas já conhecia a carreira vitoriosa dele. E nos demos muito bem, porque o Julinho, assim como eu, faz trabalhos que visam explorar a força, a explosão e a velocidade do atleta.”
Desse grupo de jogadores com os quais Fabiano vem trabalhando, alguns deles desde a metade da Copa Arthur Dallegrave, em 2009, o preparador físico destaca o condicionamento dos atacantes Lê e Everton, dos volantes Itaqui e Edenílson e do lateral Alexandre Bindé. “O Bindé, por exemplo, hoje é reserva, mas ele está pronto pra jogar. Sempre digo aos que estão no banco que eles precisam estar prontos para quando a oportunidade aparecer. Porque se surgir a oportunidade e eles não estiverem prontos, aí sim não vai ter volta. É difícil, mas é preciso mantê-los motivados o tempo todo.”
Quem vai ao estádio e vê o Everton correndo com a bola nos pés, rumo ao ataque, ou voltando rápido para fechar o meio-campo quando o Caxias se defende, não imagina a situação em que o atleta estava assim que pisou no Centenário. “Na avaliação do Everton percebemos que ele tinha uma diferença de musculatura de 3cm entre uma perna e outra por causa de uma cirurgia. Fizemos um trabalho forte de reforço muscular e hoje ele está com 1cm de diferença, o que é um índice considerado normal”, relata Fabiano.
Outros dois bons exemplos. O meia Marcelo Costa e o atacante Marcelinho. Os dois ficaram muito tempo sem jogar. Marcelo Costa estava sem ritmo de jogo e precisava de um reforço muscular. Marcelinho, além disso tudo, tinha o agravante da balança. “Quando o Marcelinho chegou aqui já fui avisando que não iria fazer um trabalho para ele perder peso. De cara eu ia trabalhar a força, com ganho de massa muscular. Depois disso, a perda de peso dele foi natural. Tanto que em pouco tempo de trabalho com bola ele já perdeu seis quilos”, atesta Fabiano.
De todos os atletas do elenco do Caxias, o volante Renan é o que mais o preocupa. Porque Renan está sentindo dores decorrentes da cirurgia que fez no púbis. “Avisamos a ele que poderia sentir dor. Mas constatamos que o problema dele é de reforço muscular. Tanto nas costas quando na parte frontal do abdômen e tórax. Não posso dizer se foi falha ou erro de preparação em outros clubes. Só posso dizer como o encontramos e o que estamos fazendo aqui no Caxias. O Renan é um jogador que se recupera muito rápido e acreditamos que em 15 dias ele vai estar liberado para trabalhar com bola.”
“Quando acaba o treino, vou pra casa, ligo a tevê e aí me lembro que minha família está lá em Curitiba e eu aqui sozinho”, diz o preparador
Fabiano está entrosado no clube. É respeitado e respeita desde o massagista até o presidente do clube. Reconhece que os objetivos do Caxias são os mesmos que ele carrega no peito. Quer vencer e conquistar ainda mais espaço nesse seleto e disputado campo que é o mercado da bola no Brasil. Vislumbra vitórias neste ano, mas sabe, por experiência e tempo dedicado ao futebol, que um ou outro tropeço é praticamente inevitável.
No dia da conversa com o jornal O Caxiense, o preparador físico disse tanto sobre essa carência de quem vive da bola que se esqueceu de mencionar a sua solidão. Ao final da entrevista, como num último ato tardio de uma peça de teatro, já com o pano preto escondendo o cenário, Fabiano falou da família. A esposa Tatiane e os filhos Guilherme, 8 anos, e Amanda, 17 anos, moram em Curitiba.
Fabiano revela assim a sua parte nessa história. “Quando acaba o treino, vou pra casa, ligo a tevê ou vou estudar, e aí me lembro que eles estão lá em Curitiba e eu aqui sozinho.” A falta do sorriso de quem sempre está do seu lado, na mais brilhante vitória ou na mais estarrecedora derrota, é sua maior dor. “Já pensei em largar tudo por causa da saudade da família. Mas não dá. O futebol é algo que me dá prazer, além de ser o meu ganha-pão”, desconversa. Parece dizer que mesmo sozinho não se sente realmente sozinho, porque o amor da esposa e dos filhos está cravado no peito como uma tatuagem.
Segurando aquela lágrima de quem ama e sente falta, Fabiano logo revela um doce sorriso ao falar que em poucos dias a mãe estará em Caxias. “Ela sempre vai assistir aos jogos nos clubes em que trabalho”, explica, orgulhoso. E que ela traga, além de um abraço carinhoso e um beijo amoroso ao filho, uma brisa de boas novas ao Caxias. Que a paixão arrebatadora que a Dona Marta, 77 anos, sente hoje pelo Caxias possa revelar-se mais do que um apoio incondicional ao filho. Que esse carinho de mãe venha impulsionar este esquadrão grená que pretende alçar voos cada vez mais altos e duradouros.